Primeira pessoa que veio a minha mente foi meu avô (por parte de mãe), ele era bem simples, usava sempre os mesmos tipos de roupas (calça cinza, blusa de botão branca com listras, meias cinzas e sapatos marrons), tinha cabelos (cabelos?) branquinhos e uma careca com algumas pintinhas, olhos azuis da cor do céu e embora nunca tenha visto, sei que ficavam verdes quando ele bebia cerveja. Ele cantava musiquinhas que nunca entendi, e espremia os olhinhos para ver qualquer coisa, atravessava a rua sem medo nenhum e saía de casa todo dia pra comprar um lanchinho e uma cervejinha. Não tinha essa de bons modos, embora ele nunca tenha sido mal educado, não fazia uso de convenções sociais hipócritas. Ia à missa e mesmo que não ouvisse nada, sabia que deveria prestar atenção ao Evangelho e que depois da Comunhão poderia sair da Igreja sem ter que ouvir os recadinhos do padre. Adorava carnaval e se fantasiava mesmo, dançava mesmo sem ouvir a música, se enrolava na lama e sempre estava se bom humor (quando não estava, ficava quietinho sentado na sua cadeira de balanço que ninguém nem desconfiava se estava triste ou não. Enrolava os dedos quando estava pensando e quando alguém reclamava dizia que não escutava nada mesmo. Era macio de abraçar e adorava dar beijos (as vezes babados!). Gostava de comer de tudo, qualquer coisa a qualquer hora e mesmo com seus 90 anos não deixava de fazer seus exercícios andando por aí. Me lembro de tantas coisas que seria impossível escrevê-las aqui. O que me faz pensar é o que ele era antes de ser meu avô. O que ele deveria sonhar na minha idade? Como ele era quando jovem? Sei de poucas coisas e sei que ele nasceu antes da Primeira Guerra, em 21/11/1916. Que ele começou a fumar cedo e vivia numa fazenda de fumo em Minas Gerais. Torcia para o Cruzeiro, mas quando veio pro Rio, escolheu o Fluminense. Fez um curso que na época correspondia a uma faculdade, mas aprendeu de verdade no dia a dia de uma Farmácia. Depois conseguiu abrir sua própria farmácia, cujo nome era Pharmácia São Sebastião. Era o dono, o empregado e inventava fórmulas. Muito mais que um farmacêutico, era um médico, um doutor de verdade. Aqueles que não podiam pagar, eram atendidos da mesma forma que aqueles que vinham de São Paulo oferecendo muito dinheiro pelas suas fórmulas milagrosas e secretas (até hoje). Casou-se, amou, foi pai e teve muitas dores de perder um amor e de perder aquilo que mais se ama, que é um filho. Não sei se posso falar da dor que sentiu, mas continuou a ser feliz, pois no fundo acreditava que a vida continuava, tanto para os que ficavam quanto para os que foram. Sabia que a morte era só a descida do trem numa estação qualquer. Tinha um coração bom e puro (isso afirmo com certeza) e adotou uma menina que estava meio sozinha e perdida num hospital. Sua farmácia (ou melhor, pharmácia) ia bem e logo conheceu a minha avó.
11 junho 2009
Seu Leônidas da Pharmácia.
Um dia estava vendo tv com minha amiga e estava passando sobre uma cantora lá, uma mulher que era muito bonita, tinha uma bela voz, atitudes e personalidade fortes e que tinha um filho que fez a minisérie para ela. Até aí tudo bem, mas eu não sabia nada sobre essa cantora e foi só eu perguntar que me olharam com cara de espanto, como quem perguntasse: '-Como assim você não sabe quem é ela? Que falta de cultura!'
A partir daí entrei numa profunda reflexão e vi que a cantora poderia até ser muito importante, mas se não fosse o filho dela a fazer uma homenagem na tv aberta, provavelmente quase ninguém da minha idade saberia quem ela foi. E aí fiz crítica àquela mulher (hoje entendo que sem motivos), me perguntei o porquê de falar tanto de uma cantora excêntrica e esquecer alguns Joãos e Josés do mundo que talvez tenham feito coisas mais grandiosas. Resolvi então que de alguma forma, tentaria falar dessas pessoas (mesmo que meu humilde blog não tenha a repercursão que uma grande emissora de tv).
Primeira pessoa que veio a minha mente foi meu avô (por parte de mãe), ele era bem simples, usava sempre os mesmos tipos de roupas (calça cinza, blusa de botão branca com listras, meias cinzas e sapatos marrons), tinha cabelos (cabelos?) branquinhos e uma careca com algumas pintinhas, olhos azuis da cor do céu e embora nunca tenha visto, sei que ficavam verdes quando ele bebia cerveja. Ele cantava musiquinhas que nunca entendi, e espremia os olhinhos para ver qualquer coisa, atravessava a rua sem medo nenhum e saía de casa todo dia pra comprar um lanchinho e uma cervejinha. Não tinha essa de bons modos, embora ele nunca tenha sido mal educado, não fazia uso de convenções sociais hipócritas. Ia à missa e mesmo que não ouvisse nada, sabia que deveria prestar atenção ao Evangelho e que depois da Comunhão poderia sair da Igreja sem ter que ouvir os recadinhos do padre. Adorava carnaval e se fantasiava mesmo, dançava mesmo sem ouvir a música, se enrolava na lama e sempre estava se bom humor (quando não estava, ficava quietinho sentado na sua cadeira de balanço que ninguém nem desconfiava se estava triste ou não. Enrolava os dedos quando estava pensando e quando alguém reclamava dizia que não escutava nada mesmo. Era macio de abraçar e adorava dar beijos (as vezes babados!). Gostava de comer de tudo, qualquer coisa a qualquer hora e mesmo com seus 90 anos não deixava de fazer seus exercícios andando por aí. Me lembro de tantas coisas que seria impossível escrevê-las aqui. O que me faz pensar é o que ele era antes de ser meu avô. O que ele deveria sonhar na minha idade? Como ele era quando jovem? Sei de poucas coisas e sei que ele nasceu antes da Primeira Guerra, em 21/11/1916. Que ele começou a fumar cedo e vivia numa fazenda de fumo em Minas Gerais. Torcia para o Cruzeiro, mas quando veio pro Rio, escolheu o Fluminense. Fez um curso que na época correspondia a uma faculdade, mas aprendeu de verdade no dia a dia de uma Farmácia. Depois conseguiu abrir sua própria farmácia, cujo nome era Pharmácia São Sebastião. Era o dono, o empregado e inventava fórmulas. Muito mais que um farmacêutico, era um médico, um doutor de verdade. Aqueles que não podiam pagar, eram atendidos da mesma forma que aqueles que vinham de São Paulo oferecendo muito dinheiro pelas suas fórmulas milagrosas e secretas (até hoje). Casou-se, amou, foi pai e teve muitas dores de perder um amor e de perder aquilo que mais se ama, que é um filho. Não sei se posso falar da dor que sentiu, mas continuou a ser feliz, pois no fundo acreditava que a vida continuava, tanto para os que ficavam quanto para os que foram. Sabia que a morte era só a descida do trem numa estação qualquer. Tinha um coração bom e puro (isso afirmo com certeza) e adotou uma menina que estava meio sozinha e perdida num hospital. Sua farmácia (ou melhor, pharmácia) ia bem e logo conheceu a minha avó.
'Seu Leônidas da Pharmácia', como era conhecido pelas pessoas de Nova Iguaçu, fez fama. Se você for iguaçuano pergunte a seus avós se já ouviram falar dele. Garanto que ele já deu injeções em seus pais e tios! Em meio a noite badaladas nos clubes mais chiques e com companhias agradáveis, nunca deixou sua simplicidade de lado. Ganhou muitas coisas por ter salvo vidas de pessoas (sim! SALVOU VIDAS!) e teve seus dias de glórias e alegrias. Foi pai novamente e deixava com que minha mãe subisse em suas costas e o fizesse de cavalinho, não queria nem saber se isso era elegante ou não. Além de ser pai da minha mãe e de sua filha adotiva, era pai de uma cidade (que hoje em dia não dá a mínima para ele, por enquanto!) O tempo passou e dedicou-se inteiramente ao ato de ser avô, brincava comigo e me levava a todo canto, sempre dizia as mesmas coisas que eu já sabia de cor (hoje em dia não me esqueço de nada que disse), aguentava minhas malcriações e ria de si mesmo se caísse no meio da rua. Reclamava dos camelôs porque queria que todos cumprissem a lei e enfrentava filas e filas só pra comprar um lanche pra mim. Depois disso tornou-se um 'rapaz' de entregas e buscas, fazia o que pediam e não cobrava nada. E nem queria cobrar, os seus interesses eram outros. Gostava de bichos. Muito raramente perdia a paciência comigo e era sempre mais engraçado do que temeroso. Chorei uma vez quando disseram que eu era louca e foi ele quem me abraçou mesmo sem entender nada. Não parava quieto, levantava, subia, descia, sentava, comia, falava.. e com isso irritava as pessoas. Irritava porque tinha vida, vida que emanava de todas as partes e não parava de querer se manifestar. Seus aniversários não tinham bolo, nem bolas nem nada. E ele nem lembrava que fazia aniversário. '- Parabéns vô! -Por quê? - Hoje é seu aniversário ué! - Aaah hehe, hoje é meu aniversário!' E assim vivia, distribuindo favores altruístas, sentimentos e beijos (muitos beijos!)
A mesma vida que ele sempre esbanjou, sempre quis que se manisfestasse, que nuca deixou com que ele ficasse um segundo sequer quieto no seu canto (como fazem os que não vivem), a mesma vida se esvaiu um dia. Não que não valha a pena entrar no mérito da questão, mas resumidamente sei que a vida acaba, mas a existência não. E com certeza a existência dele sobrevive nele mesmo, em mim, em todos que o conheceram, em todos que vivem graças a ele! E sei que sua existência sobrevive independente de qualquer coisa, afinal ele só desceu do trem. E mesmo assim, manda-me seus cartões postais da onde está, dizendo-me para que continue nesse trem maluco, que está me acompanhando, me vendo, crescento comigo e com todos que amam. Ele me diz que devo seguir meu sonho, que ele se orgulhará e que ele sabe que nos encontraremos nas estações por aí, um dia. Não importa que ninguém faça séries de tv com seu nome, vô, nem que ninguém nunca tenha agradecido quando enfrentava filas para fazer favores, não importa que teu corpo não tenha sido repousado no lugar mais lindo da Terra. Não importa que nada faça sentido. Não importa, porque para pessoas como você, coisas bobas não importam. Cresça! Desejo que cada vez mais esteja com o Pai e sei que está no caminho certo. Me abençoa e me ajuda a estar também! Amo muito você. Abraços da sua 'gatinha'.
Primeira pessoa que veio a minha mente foi meu avô (por parte de mãe), ele era bem simples, usava sempre os mesmos tipos de roupas (calça cinza, blusa de botão branca com listras, meias cinzas e sapatos marrons), tinha cabelos (cabelos?) branquinhos e uma careca com algumas pintinhas, olhos azuis da cor do céu e embora nunca tenha visto, sei que ficavam verdes quando ele bebia cerveja. Ele cantava musiquinhas que nunca entendi, e espremia os olhinhos para ver qualquer coisa, atravessava a rua sem medo nenhum e saía de casa todo dia pra comprar um lanchinho e uma cervejinha. Não tinha essa de bons modos, embora ele nunca tenha sido mal educado, não fazia uso de convenções sociais hipócritas. Ia à missa e mesmo que não ouvisse nada, sabia que deveria prestar atenção ao Evangelho e que depois da Comunhão poderia sair da Igreja sem ter que ouvir os recadinhos do padre. Adorava carnaval e se fantasiava mesmo, dançava mesmo sem ouvir a música, se enrolava na lama e sempre estava se bom humor (quando não estava, ficava quietinho sentado na sua cadeira de balanço que ninguém nem desconfiava se estava triste ou não. Enrolava os dedos quando estava pensando e quando alguém reclamava dizia que não escutava nada mesmo. Era macio de abraçar e adorava dar beijos (as vezes babados!). Gostava de comer de tudo, qualquer coisa a qualquer hora e mesmo com seus 90 anos não deixava de fazer seus exercícios andando por aí. Me lembro de tantas coisas que seria impossível escrevê-las aqui. O que me faz pensar é o que ele era antes de ser meu avô. O que ele deveria sonhar na minha idade? Como ele era quando jovem? Sei de poucas coisas e sei que ele nasceu antes da Primeira Guerra, em 21/11/1916. Que ele começou a fumar cedo e vivia numa fazenda de fumo em Minas Gerais. Torcia para o Cruzeiro, mas quando veio pro Rio, escolheu o Fluminense. Fez um curso que na época correspondia a uma faculdade, mas aprendeu de verdade no dia a dia de uma Farmácia. Depois conseguiu abrir sua própria farmácia, cujo nome era Pharmácia São Sebastião. Era o dono, o empregado e inventava fórmulas. Muito mais que um farmacêutico, era um médico, um doutor de verdade. Aqueles que não podiam pagar, eram atendidos da mesma forma que aqueles que vinham de São Paulo oferecendo muito dinheiro pelas suas fórmulas milagrosas e secretas (até hoje). Casou-se, amou, foi pai e teve muitas dores de perder um amor e de perder aquilo que mais se ama, que é um filho. Não sei se posso falar da dor que sentiu, mas continuou a ser feliz, pois no fundo acreditava que a vida continuava, tanto para os que ficavam quanto para os que foram. Sabia que a morte era só a descida do trem numa estação qualquer. Tinha um coração bom e puro (isso afirmo com certeza) e adotou uma menina que estava meio sozinha e perdida num hospital. Sua farmácia (ou melhor, pharmácia) ia bem e logo conheceu a minha avó.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
3 comentários:
"mas continuou a ser feliz, pois no fundo acreditava que a vida continuava"
Só ele sabe né....
Abraços da sua 'gatinha'.
Rããããããm!!!!
Que POHA eh essa ? rsrsrs
não seria sua "netinha" ?
rsrsrsrs
Bom, pelo que intendi ele era alegre, superativo, não se importava pra que os outros falavam, e era engraçado e correto.
E foi muito bom no que se propunha a fazer !
Massa !
O meu vô... ah o meu vo... o.O
Sabe que eu nao sei ?!
:(
aleluia resolvi ler isso tudo !
Você escreve muito bem 'gatinha'
rsrsrs
beijinho
É que ele me chamava de GATINHA Raphaaa! =)
rsrs
Ele eu deixo !
Postar um comentário